Com os primeiros raios solares se levantou, fechou a cortina, preparou um café, abocanhou algumas bolachas e sentou-se na frente do Laptop. Passou alguns minutos observando a companheira nua, iluminada por indiscretos raios que ousavam atravessar as grossas cortinas. Se lembrou dos movimentos noturnos, da dança insana em que os cômodos do pequeno apartamento serviram de palco. A talentosa amiga de longas pernas oscilava entre o amor romântico de uma noite de núpcias e o iminente ímpeto de estrangular o companheiro entre as coxas quentes. “E como eram quentes”, pensou enquanto degustava o café, um irresistível caminho de brasas que guardava no final uma rosa molhada de chuva, pronta a se abrir acolhedora ao supliciado. Começou. Com uma mão no pau e outra no teclado, vestia de palavras suas impressões matinais, pontuava as respirações mais intensas com exclamações, descrevia com excesso de vírgulas o processo do desnudamento, o percurso das bocas pelos labirintos do corpo caminhava pelo estranho e infinito mundo das onomatopéias, por vezes sentia que a grande exclamação estava perto, então usava os três pontos...e recomeçavam as mordidas, as vírgulas, as carícias, as interjeições, os imperativos, o rodamoinho dos seios, o caminho das brasas, a rosa. E no tecido do texto a cena se compunha, não exatamente como tinha ocorrido, mas com novas idéias que surgiam a cada vez que olhava a companheira deitada, nas diversas posições em que esteve durante esse tempo, nos diferentes modos que apreendeu os contornos daquele corpo amigo. Parou por um tempo de escrever, pensava em como terminar o texto, fixou-se distraidamente na panturrilha que escapava do lençol, que se expunha aos raios que a essa hora já invadiam com toda força as frestas da cortina, a moça abriu um dos olhos com preguiça, viu o amante com uma mão no pau e outra na “pena”, amável, sorriu da bizarrice, estendeu a perna descoberta até o botão que ligava o som , ficou feliz com a canção que surgiu “Let's get lost, lost in each other's arms...” e fechou os olhos enquanto Chet Baker inundava o quarto com sua voz e seu trompete.
quarta-feira, março 25, 2009
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