Victor Dalla Nora
Faz dez horas e vinte nove minutos que o astro-mastro que brilha, nos ilumina -poste infindo-, se desloca sola(r)mente para minha destra (aceno com a mão esquerda, na tentativa de fazê-lo volver, me ver, quero puxá-lo para me aquecer). Penso segundo-a-segunda, sinto minuto-a-minuto os pequenos deslocares-dez-colares diamantes dessa engrenagem que é chamada de 'poente'. (meu braço cansado cedeu, se deu por vencido.) Molestado me sinto, em mau estado me insiro. O caso é que nesses tantos moveres o ocaso ocorreu: em mim não mais é luzente aquilo que um dia me corou, me queimou; mesmo sem mãos ou pés no chão, devo seguir o sol, devo seguir o sol, o brilho, devo seguir o sol, seu brilho diamate.
tantas cores, tantos amores.
(respiro)
ainda há cores, não mais amores.
Minhas faculdades adentram no meu estado "calamidade" - se preferir, pode intervir e dizer que se trata de um mergulho “não se assuste com o tempo de submersão, não sufocarei, afinal, é uma espécie de apnéia que pratico em você” dirá, direi- onde a farei soltar gritinhos abafados contra um travesseiro que me cheira, travesseiro-parede, travesseiro-corda que te sufoca o pescoço marcado por meus dentes-tambicu. Suas mãos desesperadas procuram exasperadamente um sustento. Te sustento-alimento com o travesseiro, o enfiando cada vez mais pro-fundo de sua boca de alma rasa.
tudo o que me interessa nessa cena é sua mão esquerda que acenará na tentativa de fugir de impedir (seu malogro) que o meu sol ilumine o seu di-amante que meu sol se aproxime de seu dia-mante e que entre através da janela revestida de sarcasmo na precisa posição-cintilar daquela pedra-dente pedra-perene que brilha escornada ao som do jazz-sirene que toca em seu 'lon plei' brubeck voltemos back voltamos long play i say baixinho cochichando em seu ouvido até acabar o som não agüentar e sufocar seu fim para que você descubra enquanto sufoca que o presente se encontra no passado embaixo de uma pedra vermelha qualquer que um pássaro derrubou em sua jornada para casa causando algum estrago naquelas palavras que ocultam palavras. um mistério ou uma mera estupi-dez colares diamantes em meus bolsos e você imóvel cor lilás na cama com o sustento-travesseiro na boca.
agora parado:
observava as rachaduras do muro de uma só cor, quando, começou a chover pingos de água do céu sua graça
os pingos manchavam o muro para uma segunda cor criando um novo ambiente que me fazia rachar por dentro achar que meus olhos estivessem cansados
ambientei-me nesse segundo para a segunda cor que estava tomando forma batendo pingos na parede em mim
fui seguindo com os olhos mãos corpo e espírito os traços que esses pingos, essa nova cor, formavam
sensações se refletiram em mim como se eu estivesse dentro de um marasmo espelhado pois pude perceber que esses traços espalhados eram compostos por frases soltas de um parágrafo seu, frases suas que reverberavam em mim
já andando:
me afastei e pude ver embaçada pelos pingos deformada pelas traças a sua face oriunda da chuva; você bateu-me como uma revelação
não me conformando:
selei sua boca tracejada com um beijo celo-fane forçando-te a sair do muro pingado e vir a mim pingada pela chuva molhada.
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